quinta-feira, setembro 09, 2004

As Flores de Elisa

Há pouco mais de uma semana, tive conhecimento através de um antigo colega da Escola Primária, Cantiga Escolar de S. Miguel, que a Elisa tinha falecido vitima de cancro no cérebro.

Conhecia a Elisa desde que me conheço. Era uma, dos muitos filhos da tia América, uma senhora bem nutrida e bastante popular neste Bairro.

A Elisa, até casar, viveu com os pais e com os irmãos, numa pequena loja / cave do prédio onde eu residia em solteiro, na Rua da Adiça. A casa da tia América, vendedora de legumes e frutas, durante o dia estava sempre com as portas entreabertas. Mas estes pormenores ficarão para um outro texto.

A Elisa tinha o cabelo alourado, com ondas bem vincadas. Mesmo em jovem, tinha um ar austero. Durante muito tempo e até depois de casar, ajudava a mãe na venda dos legumes e das frutas.

Depois decidiu dedicar-se às flores. Durante parte do dia expunha-as em cestas, como se pode ver na foto aqui ao lado, deste Blog. O seu ponto de venda, digamos, fixo, era ali, no começo da Rua de S. João da Praça, que conflui com o inicio da Rua da Adiça, portanto a cerca de vinte metros da casa da tia América. A certas horas do dia levava as suas flores para junto ao Cemitério do Alto de S. João.

A Elisa partiu. Não sei se alguém continua a vender flores, ali, na Rua de S. João da Praça.

Para ela, com quem poucas palavras troquei, envio as flores das minhas memórias do Bairro.

sexta-feira, setembro 03, 2004

A ROSEIRA NÃO SERÁ ESQUECIDA


A Rosa,
Rosa das escuras ruas de Alfama,
Era rosa
Filha de Roseira Brava
Que vendia sardinha de Barrica.

A Rosa
Não nasceu num berço de oiro
Nem nasceu menina rica.
Sua mãe a pariu
Quase morta
Numa manhã invernosa
A caminho da lota.

A Rosa
Filha de Roseira Brava
Que vendia sardinha de Barrica.
Não se quedou apregoando sardinha
Pelas ruas da Regueira
Ou vendendo seu corpo lesto
Pelos bares tristes da Ribeira.

A Rosa,
Rosa das escuras ruas de Alfama,
Filha de Roseira Brava
Que vendia sardinha de Barrica.
Parida quase morta
A caminho da lota,
Que não teve berço de oiro
Nem nasceu para ser rica
Morreu pela Liberdade!
Morreu vendendo a vida.
E agora dizem em Alfama
Que a Rosa não será esquecida.

1969

Rogério

(homenagem à mulher trabalhadora de Alfama)


Os meus sinceros agradecimentos ao Amigo Rogério Simões, que correspondeu ao meu apelo enviando-me um belo poema que eu tenho todo o gosto em publicar e partilhar convosco.